Sl. 116.5 “Piedoso é o Senhor e justo; o nosso Deus tem misericórdia.” Esse verso trás alguns atributos comunicáveis de Deus, nesse assunto quero destacar a questão da justiça, ou mais precisamente a nossa percepção errônea de um mundo justo. A bíblia está cheia de versos os quais destacam a justiça de Deus, e por vezes acreditamos pelo fato do mundo ser uma criação de Deus, o mundo e seus habitantes devam resplandecer essa justiça.
Muitas das vezes queremos que a justiça prevaleça, essa é uma boa intenção, mas não tem apoio bíblico. Esse pensamento é conhecido como hipótese do mundo justo, essa perspectiva nos leva a crer que aqueles que praticam o bem serão recompensados e aqueles que exibem comportamentos desonestos serão punidos. Quais são os argumentos de que nem sempre alguém colhe o que planta? Um desses argumentos é a própria realidade a qual presenciamos.
Vemos muitas pessoas “boas” que sofrem revezes. Ao passo, muita gente má desfrutam o melhor dessa vida. Portanto, não existe algo que contribua ou cause para que cada qual receba segundo o seu proceder. Exceto claro, quando o agravo passa a estar sob a administração do Estado, nesse caso a justiça passa a ser algo regido pelo homem. Outros argumentos se encontram na bíblia. Aplicando o verso bíblico a todos os homens, vejamos Rm. 3. 10 “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.”
Quando percebemos essa acusação, trazendo para o contexto o qual está sendo discutido, somos todos impelidos a rejeitar a teoria do mundo justo. Ora, se não há nenhum justo, logo alguns não poderiam receber por sua justiça, pelo contrário, todos sem distinção deveriam receber a recompensa punitiva. Devo salientar o fato, de que segundo a bíblia haverá sim o justo juízo vindo de Deus por meio de Cristo, o qual julgará e retribuirá a cada um segundo as suas obras, isso é ponto pacifico.
O que se discute aqui não é sobre o vindouro juízo de Deus, mas sim sobre a incoerência do mundo justo. Outra questão bastante relevante para esta análise, reside no fato de que se pertencemos a um mundo injusto, como podemos esperar por justiça? Levando em conta sempre o fato de sermos também injustos. Sempre fomos tendentes a fazer julgamentos sobre tudo, inclusive quando situações adversas se abatem, principalmente sobre os outros. Logo questionamos: o que foi que ele (a) fez para acontecer isso? Já nos dias bíblicos isso era normal.
Lc. 13. 1-5 “E, naquele mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis. Ou aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.”
por que Jesus nesses versos combateu a teoria do mundo justo? O próprio contexto nos mostra. Ou seja, não existe essa autossuficiência dentro do contexto humano, todos são iguais. Os galileus e os outros dezoito que morreram não eram mais culpados do que toda a nação judaica, hoje se dá a mesma coisa. O segundo fato é que Jesus não acreditava em acaso; sim, a teoria do mundo justo nada mais é do que acreditar no acaso como sendo um juiz aleatório, que atua esporadicamente.
O que existe de fato são causas e efeitos, cada ação trará as suas reações e consequências. Isso também é bíblico, Gl. 6. 7 “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará.” Essa lei de causa e efeito é infalível? Sim é. O que a torna infalível em sua ocorrência? Parte do verso anterior nos revela, ( Deus não se deixa escarnecer). Contudo, isso não significa que todas as reações (colheitas) serão manifestadas no presente tempo, isso também é bíblico.
1ª Tm. 5. 24 “Os pecados de alguns homens são manifestos, precedendo o juízo; e em alguns manifestam-se depois.” O “depois” dito por Paulo, significa após o juízo, por isso todas as causas trarão as suas consequências. Assim sendo, a retribuição para as obras não vem do mundo justo, mas sim de Deus. Outro fato ocorrido que nos mostra a crença enraizada no mundo justo, se encontra em João 9. 1-3 “E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus.”
Jesus refutou a crença que permeava a sociedade, que era receber o prêmio pela injustiça praticada. Segundo o relato bíblico a injustiça não terá lugar no vindouro reino de Deus, mas nada diz sobre uma retribuição justa no mundo atual. Mesmo dentro das instituições ditas cristãs a crença no mundo justo é encontrada, quem já não ouviu a promessa vazia da prosperidade? Onde os líderes propõe um investimento do ganhe em dobro, ou seja se você der será próspero, caso contrário... isso não soa como um tipo de justiça?
Outras crendices baseadas no mundo justo e ensinadas também no meio religioso são: se você não é próspero é sinal de que caiu em pecado e consequentemente no desagrado de Deus. Sim o pecado trás reprovação por parte de Deus, porém isso não interfere na aquisição material de uma pessoa, Mt. 5. 45 “Para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos.”
“Justos e injustos” igualmente são beneficiados, e todos também participam dos revezes da vida. Esses revezes na verdade são frutos de um mundo injusto, construído sobre a base do pecado. Logo tanto as coisas que nos cercam, como nossa própria natureza humana que se deteriora a cada dia contribuem para a derrocada humana. Lembrando sempre que é melhor ser “justo do que injusto” ser integro do que corrompido, seguir a retidão sempre é benéfico.
Ser salutar, nos livra de muitas coisas nesse mundo injusto, lembrando sempre que mesmo em um mundo incorreto, existem leis para punir aqueles que são enquadrados como transgressores, portanto o melhor a se fazer é viver em retidão, tentando não desagradar aos homens e buscando agradar sempre a Deus.